Resenha: Cristo: do Centro ao Pluralismo Religioso

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Adriano Lima em seu livro Cristo: do Centro ao Pluralismo Religioso, propõe um olhar metodológico ao problema do histórico exclusivismo cristão, como diz o professor Luiz Carlos Susin em seu prefacio, Adriano faz uma provocação que pode chamar a atenção, removendo pedra sobre pedra, autor por autor, de forma bem escolhida, para chegar na sua tese de que: se para quem é cristão Cristo sempre é o centro, para Cristo o centro é o Reino de Deus, e o centro do Reino de Deus, para Deus, é toda a criação, toda a vida, logo também toda a cultura e religião que produzem vida. Jesus é o centro descentralizado e descentralizador, amor não narcisista de Deus. Com este trabalho o autor faz uma revisão e uma síntese das principais contribuições teológicas a um tema tão atual, com um percurso claro e convincente que começa no chão da cultura e passa pelo pensamento da fé – a teologia – até o coração da fé, sempre no respeito ao pluralismo como modo de ser do próprio Reino de Deus, portanto, da teologia, da cultura, da realidade viva. E faz uma contribuição solida diante da urgência incontornável de incrementar um dialogo ecumênico e inter-religioso quando, ao nosso redor, temos sintomas de crescimento de incompreensão, de intolerância e violência sob o manto das diferenças religiosas.

Adriano Lima é doutorado em Teologia pela PUCPR, mestre em Teologia pela PUCRS,  e bacharel em Teologia pela FAECAD. Sua principal linha de pesquisa é o pentecostalismo e dialogo inter-religioso.

Adriano vai começa a dizendo que o pluralismo é uma das características da atual globalização em seus diversos aspectos, inclusive o religioso. Se, em tempos remotos, a questão do pluralismo religioso estava mais ligada a uma ideologia passageira que não retornaria, no inicio do século XXI emerge como novo paradigma da teologia cristã e como tema central da teologia das religiões. Dessa forma, constitui inadiável tarefa e elaboração de uma teologia cristã do pluralismo religioso na sociedade plural. O retorno do sagrado “trouxe” para o mundo uma variedade infinita de religiões. Sendo assim, verdades cristãs, tidas como absolutas e protegidas pela filosofia metafísica, passaram a ser desafiadas, reinterpretadas e, em alguns casos, absolutamente negadas. O autor aborda o assunto em três capítulos, sendo que o primeiro sob a luz de referencias teóricos da antropologia cultural, busca situar a reflexão teológica cristã a partir da cultura que tem o pluralismo como fator cultural.

Para falar do pluralismo como fator cultural, Adriano se utiliza de uma síntese do antropólogo americano Clifford Geertz, que conceitua cultura como sendo o modo de vida global de um grupo; o legado social que o individuo adquire de seu grupo; uma forma de pensar, sentir e acreditar; uma abstração do comportamento; uma teoria, elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um celeiro de aprendizagem em comum; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; um comportamento aprendido; um mecanismo para a regulamentação normativa do comportamento; um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; e uma sedimentação da historia. Ainda segundo Edward Tylor, a cultura é uma totalidade complexa que abrange conhecimento, crença, arte, costume e quaisquer capacidades adquiridas pelos seres humanos como membros da sociedade. O autor também faz citações de Clifford Geertz, Max Weber, Franz Cadeal Konig e Hans Waldenfels, para tentar conceituar cultura, porem, ele mesmo entende a dificuldade de chegar a um consenso sobre a definição do conceito. No entanto, Ressalta as palavras de Marcello Azevedo para deixar clara a noção de cultura com qual se trabalha. Para ele cultura é: o conjunto de sentidos e significações, de valores e padrões, incorporados e subjacentes aos fenômenos perceptíveis da vida de um grupo social concreto, conjunto que, consciente ou inconsciente, é vivido e assumido pelo grupo como expressão própria de sua realidade humana e passa de geração em geração, conservado assim como foi recebido ou transformado efetiva ou pretensamente pelo próprio grupo.

A pluralidade cultural brasileira também é ressaltada como sendo uma realidade da nação. O convívio entre diferentes culturas no Brasil é muito perceptível, desde as velhas culturas ibéricas, indígenas e africanas até as mais recentes, como italiana, alemã, judaica, japonesa, entre outras. A pluralidade cultural brasileira, vivenciada na arte, linguagem, estilos e valores, é dinâmica, viva e esta em fluxo. Por isso, a diversidade de expressões religiosas e artísticas da sua população se estabelece como fator fundamental e indispensável para a afirmação de um país inteligível e reconhecido. Ainda, em se falando de cultura, a diversidade das culturas humanas são destacadas, como sendo essencialmente diferentes umas das outras em função distintas concepções de mundo, ritos sagrados e profanos, gastronomia, artes, crenças, praticas, entre outros fatores. A diversidade cultural, um fenômeno natural, tornou-se um fator tão presente na humanidade que é possível afirmar que o mundo atual é multifacetado ao infinito. Tal diversidade não permite afirmar a superioridade ou inferioridade de uma cultura em relação a outra. Portanto, pode-se sublinhar que a diversidade cultural é de fato um grande patrimônio da humanidade que deve ser afirmada por todas e todos que desejam um mundo melhor. É uma diversidade que enriquece e ao mesmo tempo é enriquecedora. Nas palavras de Lévi-Strauss, “a diversidade das culturas humanas esta atrás de nós, a nossa volta e a nossa frente”. E viver em uma sociedade plural significa respeitar e apreciar a diversidade étnica, religiosa e cultural. A atual vida em sociedade, nos seus diversos aspectos exige um total reconhecimento do pluralismo cultural.No passado, como revela a historia, era excluído da vivencia social todo aquele que pensava e vivia diferente. Hoje isso não é mais possível. O reconhecimento é a chave hermenêutica para a erradicação dos extremos casos de etnocentrismo que sempre resultaram em conflitos sociais. Na convivência entre pessoas de diferentes culturas, quem ganha é a humanidade. Vivamos juntos e com nossas diferenças.

O pluralismo como paradigma teológico é assunto do segundo capitulo da obra, que por sua vez faz uma reflexão a partir de Claude Geffré, que afirmou, “não há teologia fora de uma inscrição na historia e na cultura”. A teologia deve tomar cada vez mais a sério o horizonte do pluralismo religioso, o retorno religioso e a vitalidade das grandes religiões não cristãs. Esse pluralismo, segundo Geffré, é um sinal dos tempos, uma criação divina. Ele é um destino histórico permitido por Deus, cujo significado ultimo nos escapa. O novo paradigma, que emerge com cada vez mais força no horizonte da reflexão teológica, sempre enfrentou desafios ligados ao fundamentalismo. A presença desse fenômeno no universo teológico não pode mais ser desconsiderada e exige como nunca uma abordagem intelectual sincera e consistente. Depois de fazer algumas afirmações sobre o fundamentalismo, o autor faz uma observação sobre a origem, definição e causa do movimento fundamentalista, que é bastante perceptível para o movimento, um desafio para o paradigma emergente, o paradigma do pluralismo religioso. É necessária uma nova relação com o texto sagrado. Entre o fato de que Jesus Cristo e os evangelhos aconteceram uma narrativa oral. Para que se tenha uma compreensão mais profunda do texto, é preciso nova articulação. A comunidade é interpretante e no cristianismo os próprios textos já são uma interpretação que nos leva hoje a um novo ato de interpretação. Portanto, é preciso reconhecer que a mensagem de Jesus Cristo foi guardada no formato de narrativa oral e que só posteriormente, em outro momento histórico, foi escrita por essa mesma comunidade. Consciente desse fato, a religião cristã deve aceitar a narrativa dos evangelhos como plural, superando definitivamente o fundamentalismo que já causou tanto mal. O pluralismo, que foi odiado pelos fundamentalistas, esta se tornando cada vez mais uma realidade também dentro da igreja, seja nas denominações Batistas ou Presbiterianas dos anos 1920, seja no catolicismo depois dos anos 1960 e no final do concilio. E o melhor, ao contrario do que imaginavam e pregavam os fundamentalistas, a possibilidade de interpretações multifacetadas no texto sagrado é um desígnio traçado pelo próprio Deus.

Essa reflexão sobre o pluralismo religioso como novo paradigma da teologia deverá considerar o horizonte da descrença moderna e indiferença religiosa. A partir da critica marxista da religião como ideologia, da critica nietzchiana do cristianismo como doença do homem sob o signo do ressentimento e da critica freudiana das ilusões da consciência, a fé cristã tornou-se problemática. O desafio é superar a linguagem tradicional e a ingenuidade. Desde o século XVIII, com o processo de emancipação do homem, o que se sabe não concorda mais com o que se crê. A virada antropológica foi tamanha que o homem é a medida do homem e este, por sua vez, vive em um mundo que não mais se identifica com parâmetros religiosos. O deus que comandava a idade media não apenas é desnecessário como também não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. O ser humano atual não discute mais a existência de deus, pode inclusive aceitá-la, mas para ele, Deus e tudo que esteja ligado à essa questão religiosa tornou-se inútil. Atualmente a reflexão da fé exige a consideração daqueles que são indiferentes à religião. A descrença é uma realidade que esta ao lado da crença. A atual sociedade é indiferente à questão religiosa e constitui um serio desafio tanto para a teologia cristã como para os cristãos de modo geral. A experiência da fé, marcada pela cristandade, que fundamentou a teologia clássica, foi ruindo entre a descoberta da autonomia da historia e da maioridade humana. A fragmentação do saber provocou a difusão do conhecimento. Logo, o processo da secularização retirou a religião de todos os setores onde esse conhecimento foi chegando. Portanto, nessa sociedade que não tem mais uma religião majoritária, a teologia cristã deverá dialogar com a vida na sua concretude. Essa situação provocou mudança radical na posição atual do cristianismo. Para o autor, “o desafio teológico da indiferença religiosa é pensar como Deus está presente mesmo na ausência do mundo”.

Após promover um retorno do religioso com o advento da modernidade e com o avanço cientifico e tecnológico, o autor fala sobre os modelos paradigmáticos de fazer teologia, a partir do paradigma exclusivista, e continua falando do pluralismo religioso como paradigma da teologia do século XXI, dizendo que os dias atuais são desafiadores para a teologia cristã. Se a atual crise do cristianismo é em grande parte uma crise de linguagem, o paradigma do pluralismo não admite linguagens desclassificadoras. É momento de sensibilidade e respeito pelas diversas tradições religiosas, que são caminhos constitutivos de salvação. Conforme Roger Haight: Em nenhuma outra época as pessoas tiveram tanto senso da diferença dos outros, do pluralismo das sociedades, das culturas e das religiões, bem como da relatividade que isso implica. Já não é possível a centralidade da cultura ocidental, a supremacia de sua perspectiva, ou o cristianismo como religião superior, ou o Cristo como centro absoluto em relação ao qual todas demais mediações históricas são relativas.

Portanto, o pluralismo religioso de principio diz respeito a riqueza do mistério que não pode ser capturado somente por uma tradição religiosa. Dessa forma, todas as vezes que homens e mulheres pertencentes as outras tradições religiosas trabalham em favor da paz, da justiça, da liberdade e da fraternidade contribuem misteriosamente para o advento do Reino de Deus na historia. Nesse aspecto, vale salientar que os conteúdos do Reino dizem respeito à humanidade de modo geral e não simplesmente à religião. Portanto, o caminho de Jesus não diz respeito a um centrismo fechado como considerado pela cristologia exclusivista, mas pode ser considerado como uma encruzilhada de muitos caminhos.

Em seu terceiro capitulo da obra, Adriano vem tecendo comentários sobre o reinocentrismo como chave para uma cristologia no pluralismo religioso. A proclamação do reino de Deus, tal como anunciada por Jesus de Nazaré, esta absolutamente de acordo com a proposta de uma cristologia do pluralismo religioso. Segundo a afirmação de Hans Kessler, que diz que João Batista pregava a conversão como possibilidade de escapar da sujeição e juízo. Jesus, pelo contrario, ousa anunciar a nova realidade da salvação instituída por Deus, sem pressupostos e limites, que coerentemente também esta aberta aos pagãos (Mt 8.11). Deus faz nascer o sol sobre justos e injustos, e o senhorio de sua bondade que agora se aproxima (Mc 10.18), destina-se irrestritamente a todas as pessoas… O perdão precede a conversão, e é ele quem a torna possível. A salvação é pura graça, só porque não tem pressupostos, é que ela pode ser universal. O reino de Deus é evidencia de salvação para todas as pessoas que se abrem à promessa de Jesus. A exegese esta certa de que as falas mais importantes de Jesus sobre a presença do reino contem referencias as suas ações e praticas. Portanto, para Jesus, anunciar que Deus reina significa dizer que Ele executa sua função divina como criador soberano. O Deus de Jesus, é dessa forma, o Deus do reino, que dá salvação e felicidade aos seres humanos que ele criou para a vida.

Após fazer uma breve síntese sobre a historia da cristologia, Adriano fala sobre a importância de ser cristocêntrico, colocando o reino de Deus no centro da mensagem de Jesus. E para o autor, o Reino de Deus é a presença de Deus entre os homens, presença salvífeca, ativa e encorajadora, afirmada e acolhida alegremente pelos homens. Presença salvífeca oferecida por Deus e livremente afirmada pelos homens, que se torna concretamente visível na justiça e em relações de paz entre homens e povos, no desaparecimento de doenças, injustiças e opressões, em novidade de vida, que expele tudo o que estava morto e era mortal. Reino de Deus é a nova revelação de conversão (metanóia) do homem a Deus, cujo lado palpável e visível é novo tipo de relações libertadoras entre os homens em vida em comum reconciliada em ambiente natural pacifico. Reino de Deus é a presença de Deus no mundo, reveladora e portadora de salvação. Essa definição é a mais completa e mais importante para a pesquisa. Demonstra que o reino de Deus esta profundamente ligado a questão sociopolítica.

A cristologia na perspectiva do pluralismo religioso é vista nesse processo como uma “cristologia nova” dentro do atual contexto, e será necessário se colocar diante da questão da universalidade e unicidade de Jesus Cristo. Para essa nova cristologia, a base fundamental, é a figura de Jesus como alguém que viveu em comunhão com todo e qualquer ser humano, na solidariedade com os menos favorecidos, sem discriminar as classes sociais, grupos religiosos ou etnias, alguém que viveu humildemente sem utilizar nenhum tipo de força para coagir alguém a segui-lo. Em Jesus de Nazaré, ao contrario da prepotência, encontra-se um espírito de doação. Ao invés de sentir-se superior, identificou-se com os excluídos da sociedade, assumindo todas as consequências. Ao invés do ensino dogmático, fechado e opressivo, Jesus ensinava o amor ao próximo (ainda que este seja inimigo) com valor supremo. Eis aqui uma cristologia que pode dialogar com outras religiões, afim de promover autenticidade humana. Por todas essas considerações, não é necessário negar nem tampouco desconsiderar a singularidade e identidade do cristianismo, mas igualmente não é possível negar seu limite histórico. E se realmente a cristologia tem como base fundamental Jesus, então esta certamente claro que o Deus de Jesus é símbolo de abertura e não de fechamento. O Deus de Jesus é manifesto por meio de sua verdade relacional e graça que podem ser encontradas em todas as tradições religiosas. Nunca é demais lembrar as palavras de Jacques Dupuis: “em toda historia das relações de Deus com a humanidade, encontra-se mais verdade e graça do que aquelas que estão disponíveis simplesmente na tradição cristã”.

Ao final da pesquisa, Adriano deseja afirmar uma profunda intuição teológica sobre a possibilidade de uma cristologia no pluralismo religioso, fundamentada na pessoa de Jesus Cristo. Em um mundo cada vez mais marcado pelas desigualdades sociais, pela pobreza, pela opressão social, pela injustiça, e pelos grandes conflitos religiosos, que tem destruído milhões de vidas, a solidariedade e sensibilidade de Jesus de Nazaré deverá nos conduzir rumo ao dialogo com as demais religiões, visando unicamente à erradicação do sofrimento humano e a implantação do reino de Deus. A cristologia só terá sentido se demonstrar interesse pela vida humana. Em Jesus, na sua vida e mensagem, encontramos o maior exemplo de alguém que não teve medo do pluralismo religioso, que encarou grandes desafios afim de dialogar com pessoas de outras tradições religiosas, que abriu mão de privilégios e categorias doutrinarias para agir com a misericórdia e amor, que renunciou viver a religião do templo, porque viu nela ódio e sectarismo. Por essa razão ele optou por ser “desleal” com o próprio grupo para se assentar a mesa com publicanos, pecadores e prostitutas. Jesus é patrimônio da humanidade e é o fundamento do cristianismo.

Faço minhas as palavras do professor Andrés Torres Queiruga, escritor do postfácio do livro, é uma obra rica e refrescante. Uma pesquisa contemporânea que tende a dialogar com todo teólogo atual, que busca contextualizar a mensagem de Cristo à esse mundo secularizado e cético. O autor, doutor Adriano Lima, se utiliza de uma linguagem simples e  ao mesmo tempo rebuscada de argumentos provenientes de uma pesquisa rica e metodológica, que tende a dialogar bem com qualquer cristão, de qualquer tradição, ou fora do contexto tradicional de cristandade.

O livro é recomendado a estudantes de teologia, antropologia, filosofia, e pessoas interessadas a se ambientar com a situação do cristianismo atual.

 

Referencia

LIMA, Adriano Souza. Cristo: do centro ao pluralismo religioso. São Paulo, Fonte Editorial, 2015.