A Transposição do Abismo Moral

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O Dr. Zuck, em seu livro “A interpretação bíblica”, no capitulo seis, fala-nos da transposição do abismo literário, fazendo uma comparação entre os aspectos estruturais de uma edificação e as estruturas textuais pertencentes a uma literatura. Ele estabelece uma correlação entre ambos, dizendo que em seus projetos, ambos querem estabelecer elementos semelhantes e uma coordenação de aspectos diferentes. O projeto de interiores ocupa-se dos detalhes estruturais para que o resultado final seja agradável e funcional. Harmonia (coordenação), variedade e praticidade (funcionalidade) são importantes. O mesmo acontece com a Bíblia em seu projeto fabuloso. E nós só conseguimos perceber a sabedoria que a norteou, mediante um exame minucioso. Para isso Zuck coloca a interpretação retórica como o estudo que da estilo e forma a formação do texto. A interpretação retórica consiste na determinação da qualidade literária de um documento mediante a analise do gênero (tipo de composição), da estrutura (disposição dos elementos) e das figuras de linguagem (expressões que adicionam colorido e força ao texto) e de como esses fatores participam do sentido do texto. Portanto, sendo a Bíblia um livro, é então, uma obra literária, e segundo Lelando Ryken, “A literatura é uma apresentação interpretativa e em forma de arte de uma experiência”. Assim, na interpretação retórica examinamos uma variedade de ambientes literários (gêneros) e verificamos como se combinam (estrutura e estilo).

Ryken ainda é usado em uma outra referencia com relação ao brilho literário da Bíblia. “A literatura bíblica está repleta de aventuras, fatos maravilhosos, batalhas, personagens sobrenaturais, vilões […] heróis valentes, heroínas belas e corajosas […] cárceres, sagas, historias de resgates, romantismo, heróis juvenis. […] A literatura bíblica tem vida. Os estudiosos das escrituras costumam passar a impressão de que a literatura bíblica é como um documento maçante que se deve destrinchar e colocar em exposição, como uma relíquia de culturas primitivas”. Como literatura, a Bíblia traz o registro de experiências humanas. Ela fala de emoções e conflitos, vitorias e derrotas, alegrias e tristezas, defeitos e pecados, prejuízos e benefícios espirituais. Intrigas, suspense, emoções, fraquezas, desilusões, contratempos. Essas e muitas outras experiências do ser humano podem ser encontradas ali. Ainda segundo Ryken, “os autores bíblicos obedeceram a convenções literárias claras e tinham domínio dos princípios literários. Eles sabiam contar historias com um enredo bem elaborado. Sabiam contar historias que tinham em comum a tragédia ou a sátira. […] Os poetas bíblicos sabiam criar boas metáforas e fazer afirmações paralelas. […] Em sua maioria, eram mestres de estilo”. Precisamos desse modo, identificar os diferentes estilos literários que existem na Bíblia, tais como, historia, eis, narrativa, poesia, profecia, evangelhos, epistolas, literatura sapiencial, etc. A maestria bíblica, com relação tanto a forma quanto ao estilo, torna-a obra prima da literatura. Zuck segue destrinchando os gêneros literários da Bíblia.

Gênero, palavra derivada do latim genus, significa estilo literário. Refere-se a categoria ou ao tipo de escrito caracterizado por determinadas formas e conteúdo ou um dos dois. A identificação dos diversos gêneros nas escrituras ajuda-nos a interpreta-las com maior precisão. Para isso, Zuck cita a importante Declaração de Chicago sobre Hermenêutica Bíblica, referindo-se a quatro das vinte e cinco declarações contidas nesse manifesto, referindo-se ao estilo literário. “Declaramos que as Escrituras transmitem-nos a verdade de Deus verbalmente por meio de uma grande variedade de estilos literários” (Artigo X). “Declaramos que o conhecimento das categorias literárias, da forma e da estilística, das diversas seções das Escrituras é essencial para uma exegese correta e, portanto, consideramos a critica literária uma das muitas disciplinas do estudo bíblico” (Artigo XIII). “Declaramos que, apesar de o registro de acontecimentos, discursos e declarações acontecer por meio de uma serie de estilos literários legítimos, esse registro correspondente aos fatos históricos” (Artigo XIV). “Declaramos a necessidade de interpretar a Bíblia de acordo com seu sentido literal, normal. O sentido literal é o sentido gramatical e histórico, ou seja, o expressado pelo autor. A interpretação literal leva em conta todas as figuras de linguagem e os estilos literários existentes” (Artigo XV).

Esses gêneros contidos na Bíblia são: Jurídico, Narrativa (Tragédia, Épico, Romance, Heroico, Sátira, Polemica), Poesia, Literatura Sapiencial, Evangelhos, Discurso Lógico, Literatura Profética. O conhecimento desses gêneros literários nos ajuda a entender a Bíblia porque ele ajuda a transmitir a essência do livro, de forma que versículos e parágrafos possam ser vistos à luz do todo. As formas de construção ajudam-nos a entender por que determinadas passagens encontram-se onde estão. E a atenção ao gênero literário impede-nos de transformar uma passagem no que ela não é, tanto para mais quanto para menos. As formas de construção ou padrões diferentes produzem efeitos diferentes. Esses modelos estruturais são divididos em: Paralelismo, que é uma forma de comparação. Paralelismo Circular, que é um tema central precedido por trechos paralelos.  Quiasmos, que é um paralelo de ideias. Alternação, que é uma construção alternada do paralelismo. Inversão, parece com o quiasmo, porem, apresenta mais pontos de contraste ou comparação. Inclusão, é quando um parágrafo mais extenso termina de forma muito parecida a que começa. Trilogia, é quando existem três elementos correlacionados. Construção acróstica, é quando os versículos começam com letras consecutivas do alfabeto. Construção ascendente ou descendente. Repetição, para causar impacto emocional.

Desta forma,  Zuck destaca a qualidade literária da Bíblia e sua beleza artística, afim de mostrar ao interprete um retrato mais fiel das escrituras e o modo como o conteúdo é transmitido.

Bibiografia

ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia/Roy B. Zuck; tradutor Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova. 1994.