A origem do pecado

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A origem do pecado.

Todo leitor ou estudante da Bíblia já se perguntou “Como entender a origem do pecado?” ou “Onde se originou o pecado?”. Essas e tantas dúvidas fazem parte do cotidiano da humanidade desde os tempos do helenismo. Por isso, nesse post traremos rapidamente uma reflexão sobre esse assunto tão intrigante e para isso utilizaremos o Livro de Gênesis.

O Livro de Gênesis é um dos textos sagrados mais importantes do judaísmo e do cristianismo, e grande parte de seu texto foi compilado por Maomé no Alcorão. É consenso de grande parte dos teólogos modernos que o texto de Gênesis contém elementos de origem persa, e do Zoroastrismo. Mas além disso, o Gênesis se transformou, através dos séculos, numa narrativa com objetivo de mostrar a fé do povo hebreu, mesmo que muito dos seus textos não contenham validade histórica e nem empírica para a ciência.

Segundo (TAVARES. 1978) existe uma grande busca pelas literaturas da mesopotâmia antiga, pois essas literaturas mostram como pensavam os antigos moradores da região da mesopotâmia. TAVARES menciona:

Entre o riquíssimo legado da literatura da Mesopotâmia, distinguem-se os mitos das origens. E, tal como no Egito, também aí se notam variantes conforme os locais. Cada cidade da antiga Suméria, e isso continuou sob o domínio dos Acádios, tinha o seu deus principal e à volta dele teciam-se lendas, nasciam tradições. Em Nipur, por exemplo, o deus criador do homem é Enlil. O deus modelou-o com as própria mãos, como faria um oleiro. Em Eridu, a explicação era mais complicada: os deuses multiplicavam-se e começavam a viver irritados por terem de se servir uns aos outros. Namu, que era a mãe de Enki, pensou então fazer alguma coisa para libertar os deuses dessa situação. Pediu ao filho… e os homens foram criados para se encarregarem de prover às necessidades dos deuses, criados da argila amassada com sangue divino.

Outra narrativa transmitida segundo o Talmude de Jerusalém seria o mito da personagem Lilith que teria sido a primeira esposa de Adão. Segundo essa tradição Lilith seria um demônio simbolizado por uma serpente.

Nascendo no sexto dia, sendo umas das últimas criações de Deus, Lilith é criada logo após Adão e um pouco antes da criação dos demônios que, segundo Sicuteri (1998, p. 40), foram seres que tiveram apenas suas almas, pois o sétimo dia estava prestes a se apresentar, as trevas apareciam no entardecer e os seus corpos não foram criados. Deus não os completou com o corpo.

Lilith no Talmud e no Midrash

Lilith é mencionada quatro vezes no Talmude Babilônico, embora em cada um desses casos ela não seja referida como a esposa de Adão. TB Niddah 24b discute-a em relação a fetos e impurezas anormais, dizendo: “Se um aborto tinha a semelhança de Lilith, sua mãe é impura em razão do nascimento, pois é uma criança, mas tem asas.” Aqui aprendemos que os rabinos acreditavam que Lilith tinha asas e que ela poderia influenciar o resultado de uma gravidez.

TB Shabbat 151b também discute Lilith, alertando que um homem não deve dormir sozinho em uma casa para que Lilith caia sobre ele enquanto dorme. De acordo com este e outros textos, Lilith é uma succubus feminina não muito diferente dos demônios lillu mencionados acima. Os rabinos acreditavam que ela era responsável pelas emissões noturnas enquanto um homem dormia e que Lilith usava o sêmen coletado para dar à luz centenas de bebês demoníacos. Lilith também aparece em Baba Batra 73a-b, onde um avistamento de seu filho é descrito, e em Erubin 100b, onde os rabinos discutem o longo cabelo de Lilith em relação a Eva.

Vislumbres da eventual associação de Lilith com a “Primeira Eva” podem ser vistos em Gênesis Rabá 18: 4, uma coleção de midrashim sobre o livro de Gênesis. Aqui os rabinos descrevem a “primeira véspera” como um “sino de ouro” que os incomoda durante a noite. “’Um sino de ouro’ … é ela quem me incomodou a noite toda … Por que nem todos os outros sonhos esgotam um homem, mas isso [um sonho de intimidade acontece] exaure um homem. Porque desde o começo de sua criação ela estava apenas em um sonho ”.

Ao longo dos séculos, a associação entre a “Primeira Eva” e Lilith levou a Lilith a assumir o papel da primeira esposa de Adão no folclore judaico.

Segundo essa tradição antiga Lilith teria introduzido o pecado como forma de se vingar de Adão e assim conseguir igualdade de poder com Adão perante Deus. É lógico que essa tradição está carrega de tradição patriarcal, mas veja como mesmo essa narrativa mitológica influenciou o escritor da tradição teológica do pecado.

Conclusão: A teologia da origem do pecado é muito antiga e está associada não somente ao povo hebreu, mas a todos os povos da antiga mesopotâmia.

Por: Luiz Flávio Curvelo de Jesus

Referências:

SICUTERI, Roberto. Lilith, a lua negra

TAVARES, Antônio Augusto.  A criação do homem nos mitos das origens. 1978. 

Talmud Bavli – Berachot – Editora Sefer

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