O Grito dos Oprimidos e a Missão Profética da Igreja

A pobreza em sentido lato é penúria ou falta daquilo que é fundamental para a subsistência humana. Um ser humano pobre é alguém que não tem condições de garantir sua sobrevivência e, consequentemente, viver com qualidade de vida e dignidade. Ao pobre faltam bens e serviços necessários para uma vida digna. Ele é despido da dignidade e humanização da qual todo homem e mulher têm direito.
Identificar os fatores responsáveis pela pobreza não é fácil, embora se conheçam as fontes pelas quais a miséria e penúria brotam (econômicos, socioculturais, históricos, políticos, corrupção e, no plano teológico, alguns situam o pecado). Encontrar teorias sociais e econômicas que expliquem a pobreza no Brasil e no Mundo também não é difícil. Soluções para o problema escutam-se à uma, em cada eleição à Presidência, ao Governo e Prefeitura. Alguns chegam mesmo a dizer que “é hora de cuidar das pessoas”, mas nada é feito em relação a elas: os pobres, órfãos e aposentados são vulgarmente protelados e rapidamente esquecidos.
De modo geral, a pobreza ainda é vista nos rostos das crianças que, ainda nos braços maternos, sofrem e morrem de inanição. Nos rostos das crianças pobres que, escapando da morte, são exploradas em trabalhos forçados ou nos semáforos das metrópoles. Nos rostos dos moradores de comunidades pobres, ou no rosto dos jovens sem esperança.
Mas será que Deus não se importa com a escassez e pobreza das pessoas? Sim, Deus se preocupa. Ele é o criador de todas as coisas. Ele criou o mundo para ser um lar de prosperidade e harmonia para todos. À semelhança do sofrimento de Israel no Egito, Ele vê, escuta, conhece e age (Êx 3.7-8). É nesse contexto que Moisés é chamado para ser profeta (Êx 3.10). É nesse contexto que a Igreja se faz profética. Tal qual Moisés, a Igreja também é chamada para adentrar nessa luta. Ela é convocada não apenas para ajudar o necessitado, mas para abrir a boca a favor do injustiçado, do pobre, do oprimido. Sua função não é apenas anunciar a salvação do Senhor, mas também denunciar o estado de opressão do povo. Ao anunciar a salvação em Cristo e acolher na comunidade o excluído, sendo mãe para o órfão, amparo para o necessitado, ela cumpre parte de sua tarefa no mundo hoje. Todavia, a insuportável corrupção que se alastra em todas as camadas e instituições sociais impelem a Igreja a dar um passo mais além e compreender mais profundamente seu chamamento profético e função soteriológica. A Igreja é chamada a viver e ensinar a ética de Cristo ao homem moderno. E à semelhança da missão de Cristo, “anunciar aos pobres as boas-novas e proclamar a libertação dos oprimidos; anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19). Não podemos interpretar “o anúncio do ano aceitável” apenas escatologicamente, mas também politicamente – A justiça de Deus é o cetro do Reino dos Céus, como anunciara a Escritura (Sl 45.6-7; Hb 3.3-4). Devemos abrir a boca a favor do oprimido: “Abre a tua boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham em desolação” (Pv 31.8).
A condenação das injustiças sociais continuou por meio das vozes dos profetas de Israel. Isaías condena o culto hipócrita que escondia atrás de si a ganância, a miséria, a injustiça: “Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai das causas das viúvas (Is 1.16-17, ver 58. 6-8). A religiosidade pode esconder as mais injustas ações contra os homens! Infelizmente, hoje a religiosidade não esconde apenas as injustiças mas se faz a si mesma uma fonte de ganância! Igualmente, Amós condena a hipocrisia litúrgica e a incapacidade daqueles que se escondem na pseudopiedade de agir com justiça em relação aos pobres: “Afasta de mim o som dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas violas. Corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça como o ribeiro impetuoso (Am 5.23, 24). Se entoarmos cânticos a Deus, e se o estivermos ouvindo atentamente, ouviremos: JUSTIÇA! A Igreja deve estar atenta a voz de Deus para o nosso tempo. Acredito piamente, pela Escritura, que o Senhor não está satisfeito com nossa inércia e silêncio diante das injustiças de nosso tempo.
A Igreja não deve se calar diante das injustiças sociais de nosso tempo!
“Abre a tua boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham em desolação” (Pv 31.8).
Esdras Costa Bentho

Deixe uma resposta